Os fins-de-semana são momentos de autêntica alegria. Dou por mim a aguardar pela vinda da sexta-feira como um miúdo que espera ansiosamente o Pai Natal, para pôr em prática os meus planos de descoberta desta cidade.
Ando entusiasmado com os pagodes ou templos. Ainda não consegui perceber a diferença, mas prometo que vou investigar.
O domingo, estava preguiçoso... Calor e humidade... Muito estranhamente a cidade estava calma. Quieta... Será que toda a gente estava a dormir? Mas eram apenas 3 da tarde...
Adiante...
Experimentei pela primeira vez a zona Este da cidade. Sai dos caminhos principais que me levam ao centro - zona oeste - e mergulhei no labirinto das ruas sem referências, ou por outro, as referências são imensas, tantas que não nos conseguimos referenciar!
Apenas decorei - na última vez que passei, na semana passada - que tinha de virar à esquerda num cruzamento com o outdoor gigante na empena de um edifico, a fazer publicidade à promessa de um creme, que deixa as senhoras brancas como a cal... O problema é que mudaram o tema - passou a ser a promessa de uns dentes brancos e brilhantes pela pepsodent - fiquei confuso quando me deparei com a alteração... Será aqui? Bem, arrisquei... Não se pode hesitar num cruzamento, não é? O conceito do anuncio era o mesmo: a brancura, pelo que na duvida, optei pela relação intima e invisível da publicidade. Acertei. Era esse o cruzamento, e era essa a esquerda que tinha de virar!
A zona para onde fui chama-se Cholon, sei que é a Chinatown de Saigão. Esta referenciada como o maior bairro da comunidade Chinesa do Vietname.
As ruas são mais estreitas e os edifícios mais pequenos, com 3 a 4 andares e orgânicos. Conseguimos ter uma percepção - ainda assim reduzida - do que se passa lá dentro...
Soube que havia muitos pagodes neste bairro e que o melhor seria, ao passar, estacionar a mota e entrar. Não programar uma cadência de sítios ou spots, mas como nas refeições, deixar-me ir... Confesso que este termo, ou melhor, este "estar" na vida, tem trazido delícias memoráveis, sabores inesquecíveis, cheiros irrepetíveis, imagens desconhecidas e pessoas extraordinárias, pelo que já não vou pela corrente racional do turista europeu, zeloso e obediente pelo guia. Simplesmente deixo-me ir... Viajando.
Entrei num pátio largo, como se fosse uma bolsa de espaço num confinante e apertado sítio de casas e casinhas. Deveras espaçoso, este primeiro filtro separa o pagode do bulício da cidade, afastando o ruído e a imagem do corre-corre das motas. Entramos numa outra realidade. O tempo para. Fica estático. E vagarosamente estacionei.
A entrada do pagode parece muito pequena devido a escala dos dois edifícios que lhe fazem ombro, mas quando chegamos junto dele a percepção e bastante diferente.







O Pagode esta vazio de pessoas no seu interior.
Ou
melhor, as únicas almas são os funcionários... E eu!
Passando a entrada, surge um outro pátio,
filtrando ainda mais o isolamento. A cidade e passado, já nem na memória
habita. Os nossos sentidos são encadeados pela nova luz do pátio.
Vejo pela minha primeira vez enquanto arquitecto, um dos vãos mais extraordinários: uma porta em círculo. Parece vulgar e corriqueiro ate, mas no sítio e contexto e de uma simplicidade e invenção incrível. Talvez pelas grades ou o seu posicionamento na parede. Não parece uma porta nem se assemelha a um acesso... Apenas uma forma misturada com outras figuras geométricas penduradas na parede...
E de repente tudo se transforma... Entramos na
zona do culto, onde tenho de me descalcar e fico completamente desarmado... O
tecto esta repleto de incesos em espiral que lançam um perfume que nos enlaçam
e ficamos meio opiados... Qual americano tranquilo de Gram Green... Esta Saigão
é uma caixa de Pandora...
Porque o acesso do pátio faz-se pelas laterais, aqui, na zona de culto, podemos percorrer o miolo do espaço, tocando com os nosso olhos todos os pormenores.
No centro das espirais de incenso estão uns
dizeres em chinês, talvez preces, em cartão vermelho e letras pretas...
Os altares, ao fundo do espaço, são ricos e muito trabalhados, quase que não conseguimos ver o principal: a estátua da divindade. Em todos, estão depositadas frutas e outro tipo de alimentos, juntamente com bebidas e paus, muitos paus de incenso... Li algures que a relação entre nos, terrenos, e as divindades faz-se através do incenso, mais propriamente, pelo fumo que e libertado e que, dançando pelo ar, emerge na vertical em direcção ao céu... Digamos que e o veiculo de conexão... Bonita metáfora...
Depois desta descoberta: do pátio, dos
incensos, dos altares, sentei-me no chão fresco e fechei os olhos, segurei os
meus pés, flectindo as pernas de encontro ao peito e encostei o queixo junto
aos joelhos... E fiquei... Sem pensar em nada... Consegui ouvir o silencio...
Indescritível.
Não sei quanto tempo fiquei no pagode. Quando sai, anestesiado, já era de noite, tentei repetir o caminho inverso para casa, mas deparei-me com uma situação que não tinha acautelado... A rua era de sentido único. Pensei na ousadia de ir, devagarinho, em sentido contrário - e muito habitual e corrente este modo de infracção por estes lados - mas são muitos kilometros, provavelmente uns 20 ate chegar a casa!
Mas encontrei uma solução, enquanto estava a procura da lógica no meio do caos, ou tentar estabelecer uma estratégia com o mapa de pernas para o ar... Vejo um autocarro azul, dos novos que faz a ligação entre Cholon e o mercado de Ben Thanh (obrigado Alexandra pela dica)... E lá fui eu atras dele. Pois, chegando ao mercado, já consigo desenvencilhar-me para casa. Creio que nunca tive um guia tão grande, vistoso, poluente e ruidoso na minha vida!