sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A importância da bolacha Maria, ou, como fazer um "chega para lá" à saudade.

Fez ontem 15 dias que cheguei à Cochinchina - nome curioso que Fernão Mendes Pinto deu à Indochina Francesa, actual Vietname!

De facto, estou longe... Bem longe.
Toda a magnitude da portuguesa expressão: "Fica na Cochinchina" está a ser bem sentida e vivida...

À partida, sabia que não ia ser fácil.

Os primeiros dias são uma autêntica excitação, tudo novo: sons, palavras, cheiros, cores, temperatura, humidade, pessoas, enfim, um rol de sensações únicas, muito difícil de encontrar a palavra certa ou o adjectivo correcto e nem a fotografia consegue de todo, revelar o arco-íris das emoções experimentadas.

Contudo e sem querermos, surge de repente um bichinho nostálgico do nosso Portugal, da nossa família, da nossa casa, do vírus da rotina - é normal! Faz parte. Sempre foi e será a nossa casa, a nossa vida.

Mas, nesta minha aventura, continuo a acreditar que tenho sorte:

Estava eu a ser mordido por esse malandro bichinho, quando me perdi no supermercado local à procura de uma alternativa ao arroz.

Todos os dias tenho comido arroz, ora ao jantar na forma de noodles, ora ao almoço na forma tradicional. Hoje de manhã ao olhar para o espelho, vi os extremos dos meus olhos a estreitar... Espero que seja o resultado de uma noite mal dormida e não de tanto comer arroz. O tempo encarregar-se-á de me dizer!!!

Mas voltando ao supermercado, estava eu à procura de alguma coisa diferente, com um ligeiro sabor a ocidente, mas a frustração ia crescendo, porque não existe nada semelhante com os nossos produtos, e quando pensamos que este ou aquele produto possa ser qualquer coisa idêntica com a nossa realidade, logo perdemos todas as esperanças, porque nos rótulos das embalagens não existe descrição em versão inglesa. Em algumas, existe tradução para chinês - creio - ou para japonês - creio também - porque pelo menos os símbolos são muito diferentes... Mas em inglês, nada.

Mas... Vindo do nada, numa prateleira, surge a palavra mágica. Familiar. Nome da minha mãe e de muitas portuguesas: MARIA. Simplesmente, MARIA. Sim, eram bolachas MARIA.

MARIA, MARIA, MARIA, MARIA.



Como é bom, na mescla de tanto ruído publicitário com nomes indescritíveis, impronunciáveis, indecifráveis, sem relação linguista com o nosso português, com acentos esquisitos, imagens nunca vistas, combinação de cores impensáveis, estranhas formas de embalagens: surge 5 lindas letras: MARIA.

Escusado será de dizer que comprei 3 pacotes.

Acho que nunca soube tão bem comer uma bolacha MARIA.

A primeira dentada, trouxe recordações da minha família.

A segunda, dos lanches com um copo de leite, da minha casa. A terceira, da cozinha dos meus pais, dos cães a olharem para mim à espera de uma migalha, dos meus amigos. Como é possível caber num simples círculo de farinha e açúcar tão boas memórias?

De repente, a Cochinchina deixou de ser um lugar estranho.

Acredito que o bichinho que começava a roer as entranhas da saudade ficou de barriga cheia, de tantas bolachas MARIA, pois desapareceu num instante, sem rastos... Apenas deixando aqui e acolá umas pequenas migalhas de bolacha, MARIA.



4 comentários:

  1. Mais uma deliciosa cronica da cochinchina.
    Todos os dias ficamos já na expectativa de ler o diário.
    Bom para todos, embora longe ficamos perto.

    ResponderEliminar
  2. Se fosse a mim lembrava-me logo da Avó Bela! :D

    Abraço

    ResponderEliminar
  3. Estou fascinado meu caro Sérgio!
    Estou a descobrir dentro do meu amigo um outro amigo de quem estou a gostar ainda mais; é ainda mais sensível, tem um fino sentido de humor, e reconstrói-se a cada dia na experiência de reclassificar a vida como quem vai descobrindo a ordem que domina o caos.
    Aguardo com entusiasmo ao fim de cada dia um novo retrato, um novo traço que nos liga da Lusitânia à Cochinchina. Bravo, meu amigo.
    (Nota: o teu estilo de escrita tornou se mais sensível e menos rebuscada, o que é uma melhoria de 200%. De facto, a primeira condição para escrever bem é ter coisas para dizer ...)

    ResponderEliminar