Viver numa cidade só é tentador se esta conseguir, diarimente, revelar surpresas, sejam elas, boas ou más. Quando estes “happenings” deixam de acontecer, a cidade já morreu dentro de ti e está na altura de procurar outro sitio. Até agora, Saigão tem tido uma capacidade enorme de me captar e absorver. Diariamente surgem coisas inesperadas, revelações impossíveis de acreditar. Tudo é novo. Tudo é diferente.
Hoje simplesmente deixei-me ir naquela corrente invisível, quase mística, que apenas algumas cidades têm. Entreguei-me ao bulício e desfrutei do seu tempo.
Como é diferente percorrer as ruas com um nativo. Sentar e gozar a sua vida tal como eles, sem rodeios artifiais, forçados ou salamaleques turísticos.
Fui convidado pela Lan para experimentar o verdadeiro prazer de beber chá. E que maravilha. Fez-me acordar ás 8h30 de um Sábado! O programa era apanhá-la junto da sua casa e ir-mos de mota a uma tradicional casa de chá no distrito 1. E assim foi. Depois de andar ás voltas e voltas, lá consegui encontrá-la, pois não a reconheci de imediato: estava totalmente tapada por causa do sol! Como ela fala um excelente inglês, foi como passageira a indicar-me o caminho e eu a conduzir. Passou o tempo todo a chamar a minha atenção para este e aquele edifício, o que me fez distrair repetidas vezes e forçosamente a fazer perigosas inversões de marcha. Já é difícil conduzir nesta cidade (hei-de colocar um post sobre isso) quanto mais com uma palradora!
A casa de chá encontra-se numa ruela apertada, onde é impossível cruzar dois carros. Quando entrei, tive de me descalçar. O pé-direito era baixo e um forte odor a incenso marcava presença. Uma estatua em mármore branco sem veios com a representação de Buda deu-me as boas vindas. Passamos pela cozinha, ou a área de preparação das infusões, e subimos através de uma escada de tiro em madeira para dois níveis acima do rés-do-chão. Tudo era pequeno e baixo. À escala da mão. A sala abriu-se de uma maneira incrível, possivelmente porque a escada era bastante íngreme e confinada, obrigando-me a prestar atenção aos degraus, mas quando cheguei ao patamar e levantei a cabeça… uau…
Do tecto girava uma cansada ventoinha em estilo tropical e a sala estava dividida por finas cortinas de bamboo. Muito subtilmente entrava uma luz coada por entre as folhas que tapavam as janelas abertas. A marcar o pavimento e as zonas de estar encontrava-se umas esteiras rectangulares com finas almofadas.
Bules, tacinhas, fogareiros e copos estavam arrumados em cima de uma mesa que não se encontrava a mais de 15 cm do chão. Sentamo-nos e de um pequeno livro com folhas secas coladas, deixei que a Lan escolhesse o chá por mim. Ah, a musica. Esqueci-me da musica. Claro, havia musica. Da região de Sapa, no norte, junto com a fronteira com a China. Éramos os únicos na sala.
A empregada trouxe diligentemente duas tacinhas com a infusão e um tipo de vaso – não bule – cerâmico branco com pintas azuis, cheio de agua.
Colocou uma acendalha no fugareiro de barro para ferver a agua e deixou-nos… e foi um deleite para os sentidos… que experiencia.
Em pequenos golos sorvi o liquido. Um perfume doce a flores e um apontamento picante – muito ligeiro – revelou-me o corpo deste chá. Mas depois desapareceu de repente. Não se prolongava. Muito instantâneo, como um jogo do “toque e foge”… obrigou-me a bebericar constantemente, para poder prolongar essas emoções. O mundo é uma caixinha de surpresas!!
Mas o sábado não ficou por aqui. O tempo voou e trouxe-me de volta à realidade como uma Fénix renascida. Passadas algumas horas, ainda meio embriagado pela mistura da companhia e do sabor da infusão, saímos para a agitada rua, cheia de buzinas e poluição. Andamos dois minutos e tivemos um furo. E logo no Vietname, bolas! Mas foi simples. Em cada esquina, à semalhança das Xé-om, existe um senhor, que habitualmente se encontra de cócoras a fazer companhia a um compressor, a aguardar pacientemente por um desafortunado motociclista com problemas mecânicos ou com um furo no pneu!
A Lan falou-lhe. Assentiu. Entreguei a mota e em troca recebemos dois pequeninos bancos, para aguardarmos enquanto ele, com uma taça de água imunda, tentava descobrir o furo… com um pouco de cola e borracha, com uma martelada para a esquerda e outra para a direita – não percebi muito bem qual o propósito do martelo! - fiquei com o problema resolvido – até ver. Paguei 5000 vnd = 0,17€.
Chegamos a um mercado, onde fervilhava gente de toda espécie e feitio. Mais gente do que produtos!! Uma senhora gordinha, que só mexia os olhos e o braço esquerdo – que segurava uma concha – estava sentada solidamente num banco junto a uma generosa e imunda panela, com um espesso liquido branco borbulhante. Sopa de caranguejo, cogumelos e galinha – outra vez galinha, meu Deus. A minha mãe que me perdoe, mas confesso que foi uma das melhores sopas que já alguma vez provei.
O ambiente era completamente pitoresco. Sentados bem junto ao chão porco e surrento, comemos em volta da panela. Nas nossas costas, passavam pessoas com animais, outras com sacos enormes cheios de vegetais. Por vezes “apanhávamos” com alguns…
É necessário largar os preconceitos. Esvaziarmo-nos de pormenores pré-concebidos. O segredo reside em ir. Simplesmente ir. Permitir que o prazer nos belisque e gozar o efeito da novidade. A endorfina acaba por fazer o resto. Rendi-me ao extraordinário sabor do caranguejo e volúpia do pegajoso caldo e tentei imaginar o que as senhoras do lado poderiam estar a dizer no seu dialecto. Só assim consegui decifrar o real sabor do repasto!
Saigão, continuas a surpreender!
Muito bom de novo ler as descrições de tal forma realistas que nos transportam imediatamente para o ambiente que embora agitado se entende que transporta uma serenidade de vida enorme. Os odores, sabores, cenários que fazem parte dessa nova vivência sentem-se como extraordinariamente ricos.
ResponderEliminarCarpe Diem
Já é um hábito vir aqui todos os dias à procura do post do dia: momento sereno de partilha e prazer para me deliciar com a finura de humor e sensibilidade dos teus episódios. Tenho saudade das nossas conversas filosoficas, que aí teriam pasto suculento para muita reflexão.
ResponderEliminarEste Sábado é um desses ... Delicioso!